A motivação para se fazer Ciência, ou como parar de procrastinar e escrever a droga do artigo

Ao parar e tentar descobrir porquê não conseguia escrever o artigo que preciso terminar, com resultados do meu doutorado, e que não anda há quase um mês, me deparei com uma pergunta simples: qual é o motivo para eu escrever um artigo? Qual é o meu motivo para fazer Ciência? Comecei a pensar nas questões profundas da Ciência, sua utilidade para a sociedade, o avanço do conhecimento, mas parei novamente e me forcei a pensar, com calma: qual é o motivo para eu fazer Ciência? Ou, a questão mais prática, qual é a minha motivação para escrever um artigo científico?

Esse post pode ser considerado como um modo pelo menos tentativo de ser produtivo e procrastinar ao mesmo tempo. Esse é o ponto: tenho essa pressão em precisar ser útil, em fazer algo útil, em ter um objetivo pessoal. Grande parte da minha motivação vem disso, desse senso de utilidade, de evitar o desperdício do tempo, do fazer alguma coisa produtiva. Se isso é saudável e quais são as causas disso não sei, e esse é motivo para um outro pensamento, bem mais pessoal. Mas o fato é que isso está aqui, é imperativo, e o sentimento de culpa é enorme mesmo quando não há a necessidade de ser produtivo, ou mesmo quando essa pressão para tal é contra-producente.

Fazer qualquer coisa sem motivação é um suplício, e muitas vezes essa motivação não está clara. Então, qual a finalidade de se escrever um artigo científico? Considerando que eu cedo sem pensar ao imperativo de fazer alguma coisa útil (por mais vago que isto seja), e assumindo que o que eu produzi no frenesi Alt-Tab tem algo que possa ser publicado, um artigo científico é um dos principais jeitos de se externar esse conhecimento. Penso que se tivesse desenvolvido um programa – como fiz – e o publicasse, teria que no mínimo escrever uma documentação sobre ele, de como usá-lo, o que ele faz. Um artigo científico é semelhante, com sua linguagem bem especificada e sua aura de correteza após o peer-review. É a forma de se transmitir o conhecimento gerado, é a forma de se deixar registrado que foi você que fez aquele conhecimento, junto com os outros autores.

Será isso suficiente? Parece que não. O impacto de um artigo em específico, de um sozinho, não pode geralmente ser mensurado de forma imediata, se for mensurável – afinal, meu primeiro artigo tem, até onde eu sei, uma citação (o que me deixa com um fator h=1. Uau.). Sem esse retorno imediato, sem essa satisfação direta, escrever se torna penoso, mesmo que com uma rodada do Latex se veja o pdf.  Uma fotografia tem uma recompensa imediata, se vê o resultado e a sensação de uma foto boa ou ruim é clara.

O artigo científico é a moeda de troca corrente no meio da Ciência: é ele que define o que se produz, assim como código é o que define o que um programador produz. Da mesma forma, o número de citações do artigo é equivalente ao número de downloads do software, e da mesma forma, citação não se converte diretamente em resultados, mas é a forma mensurável de se poder obter recursos (mais dinheiro para pesquisa, posição em uma universidade – estou procurando uma… ou mais dinheiro para mais desenvolvimento do software). Um artigo também reflete prestígio, assim como um software. E ambos, na sua produção, exigem um esforço enorme de concentração e motivação. E aí está uma diferença entre o artigo e software: o software pode gerar diretamente dinheiro, enquanto um artigo, não. Um artigo, entretanto, registra um novo conhecimento gerado, e muito provavelmente usou alguma espécie de software para ser produzido, em alguma de suas várias etapas de confecção.

Acho que no final preciso é usar a modificação do shut up and code: shut up and write.

3 thoughts on “A motivação para se fazer Ciência, ou como parar de procrastinar e escrever a droga do artigo

  1. 1. Vc escreve bem pra caralho.

    2. Estava falando sobre a necessidade de ser útil com minha TO. Estamos até treinando como deixar de ser. Podemos conversar quando o tempo permitir.

  2. Gostei muito…Você simplesmente fala sobre um dos maiores questionamentos da humanidade.
    Eu não vivo tudo isso que você escreve, não sei muito bem como você tem que justificar e registrar a suas pesquisas… Mas penso que deve ser angustiante, dedicar ” a sua vida” em estudos, estudos, tentativas, pesquisas…e não saber se isso será “concreto” um dia… Fiquei pensando : ” quem lê, esses artigos?”, ” o que ele faz ? e provoca o que em que lê?”…Onde isso se torna ” ação” para ser “util”?
    O que é essa culpa? de onde ela vem? Está enraizada em todos nós…Porque e como conseguimos dedicar o nosso tempo, digo, a nossa vida?…que motivação é essa? de onde vem? qual o nome dela?
    Acho que de tempos e tempos, temos que olhar para o caminho, para onde estamos indo, onde ele está nos levando?
    As motivações mudam…Só que as vezes não nos damos conta disso…As vezes estamos caminhando baseado numa escolha que fizemos no passado, quando eramos “outra pessoa” e mantemos o caminho sendo “outra pessoa de novo”, vc entende o que escrevo?
    Obrigada por ter me mostrado o texto me fez refletir muito também…

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