William Gibson e a revolta no Irã
Para quem ainda está seguindo a grande media, e não tem acompanhado o que tem acontecido no Irã, aqui vai um resumo rápido (mais informações e uma excelente cobertura em The Huffington Post): Eleições para presidente aconteceram no dia 12, no Irã. O atual presidente, Ahmadinejad, teria ganho com uma vantagem absurda sobre o concorrente reformista, Mousavi, que tinha indicações que iria ganhar, ou ao menos iria ao segundo turno. Com o anúncio, apenas duas horas depois do fechamento das eleições, que Ahmadinejad teria ganho no primeiro turno, o país entrou em revolta. Desde então, vários acontecimentos simultâneos tem ocorrido:
* O sinal da BBC em Persa está sendo embaralhado e bloqueado;
* As ruas de Teerã estão tendo protestos por apoiadores de Mousavi desde o dia 12. Vários dos protestos, pacíficos, se transformaram em conflitos entre a polícia, os chamados “roupas comuns” (suspeitos inclusive de serem do Hezbollah) e os manifestantes.
* A Universidade de Teerã foi invadida, diversos (100 aproxidamente) estudantes foram presos, e alguns estão desaparecidos.
Entre outros acontecimentos. Mas o mais marcante é a mudança na forma que a informação tem se propagado dentro do Irã, de dentro para o mundo, e do mundo para o Irã. A ferramenta mais usada, incrivelmente, foi o Twitter, onde iranianos de dentro do Irã postam informações para cima e para baixo, coordenando os esforços, e transmitindo o que podem para o resto do mundo. Em um movimento até emocionante, pessoas de todas as nacionalidades começaram a ajudar, via twitter, blogs, flickrs, a divulgar informações diretas da rua, enquanto as agências de notícias tradicionais, como a CNN, estavam inertes. Bravos jornalistas que estavam no Irã tentavam transmitir como podiam estas informações e fotos para fora, mas o grosso do movimento foi feito via web 2.0.
E, num mundo onde as ferramentas estão disponíveis para todos, o governo iraniano começou a bloquear a internet intermitentemente, a filtrar parte do conteúdo, e derrubando proxies, enquanto pessoas no resto do mundo corriam para subir novas proxies e publicá-las no twitter. Ataques DDOS começaram a ser coordenados contra as agências de notícias estatais do Irã e sites do governo, inclusive usando ferramentas prontas por usuários comuns. Pessoas começaram a ser presas de acordo com os proxies que estavam sendo usadas. Darknets estão sendo sugeridas, como o TOR, e novas listas de proxies estão sendo passadas agora via mensagens diretas.
O incrível é lembrar de William Gibson, e seu livro seminal, Neuromancer. Tirando a parte das interfaces cerebrais e as representações visuais diretas, o que eu vejo é exatamente o cenário que ele descreve, mas de uma forma ainda mais colaborativa, onde anônimos se unem a uma causa e a ajudam, de forma virtual, do mundo inteiro. Uma verdadeira guerrilha virtual, uma guerrilha de informações e contra-informações, supra-governos e nacionalidades. Ferramentas abertas, com API abertas, contribuindo para que indivíduos ajam para ajudar outros indivíduos, inclusive com idéias diferentes, mas alguns ideais ou um sentimento de ajuda comum.
Se não fosse pela pressão via twitter, youtube (apesar das remoções dos vídeos, que migraram para outros hosts de vídeos), flickr, twitpic, quase o mundo inteiro não estaria sabendo o que está acontecendo no Irã. E Ahmadinejad estaria feliz no poder, com sua eleição muito provavelmente roubada.
Tendo lido Neuromancer quando adolescente, crescido mexendo com computadores e informação, fascinado pela troca de informações e pela técnica dessa transmissão digital, pela Física disso, ver isso acontecer desta forma me arrepia. E poder fazer parte disso, mesmo quando o presidente do meu país manda agradecimentos para o tal que roubou as eleições, me deixa ainda mais responsável.
Detalhe irônico: o próprio William Gibson está twittando informações para os bloggers e twitters iranianos, e retransmitindo as infos. e Postou esse comentário:
GreatDismalRT @LittleMonsta Somewhere in downtown Tehran, someone is studying the paper version of the first doctrine of cyber counter-insurgency.
Nada poderia ser mais verdadeiro.
Edit: se você quiser seguir o que está acontecendo no twitter, logue e siga o canal #iranelection. Fotos impressionantes estão neste link (atenção: imagens com violência)